13.3.10

Saudades de um Baculejo

Postado por Comunicação Social |


Júnior Silva

Não tem jeito, quando o acaso faz você vir a esse mundo como um suburbano, ele também costuma mandar junto com você um pacote ingrato de situações sociais: estudar em escolas sucateadas, morar em lugares precários, ser maltratado em unidades de saúde pública e ainda ser uma vítima em potencial daqueles que deveriam lhes dar “segurança”: a polícia. Eu, como tenho essa origem suburbana já experimentei essas e outras situações muito comuns entre aqueles que nascem na periferia e são filhos da classe trabalhadora.
Como filho de pai caminhoneiro (assalariado) e mãe dona-de-casa que mais tarde se tornou cabeleireira, passei pela minha adolescência experimentando alguns baculejos da polícia. Já na minha vida adulta foram poucos, menos do que uma meia dúzia, mas já fazia tempo que não passava por esta situação. Não que eu estivesse com saudades, mas na última quinta-feira, dia 11 de março, vivi uma situação curiosa. Sai da faculdade onde trabalho por volta das 22h20min e, como eventualmente faço parei em uma loja de conveniência de um posto próximo ao bairro onde moro. O plano era comprar alguma coisa para comer em casa e pronto, ir embora e dormir para começar tudo novamente no outro dia. Enquanto eu estava no caixa da loja entraram dois rapazes trajando bermuda e um deles usava boné, escolheram em refrigerante de dois litros, perguntaram o preço ao balconista que lhes informou custar R$ 4,50 e entraram na fila logo atrás de mim. Exatamente neste momento parou na frente da loja uma viatura da polícia militar do Espírito Santo, amém, Oxalá nos proteja...! Desceram dois policiais muito bem equipados com colete a prova de balas, bat-cinto de utilidades e um deles empunhava um monstruoso fuzil com o cano virado para baixo. Dentro da loja havia além de mim e os rapazes, o balconista e um senhor uma mesa. Quando os policiais entraram logo pensei que iria matar saudades dos baculejos da minha adolescência, e já havia saudosamente respirado fundo quando percebi que eles se dirigiram aos rapazes atrás de mim. Pediram para que eles levantassem a camisa e tirassem tudo que houvesse nos bolsos. Ao constatar que não tinham drogas, nenhum revólver, nenhuma faca ou uma arma de destruição em massa os policiais viraram-se e dirigiram-se para a saída, demonstrando claramente que não iriam fazer mais nada por ali. Quando vi que aqueles homens insensíveis não iriam satisfazer os meus desejos saudosistas, não resisti, me dirigi a um deles e perguntei:
- Por favor policial, posso lhe fazer uma pergunta?
Ele se virou em minha direção e apenas balançou a cabeça positivamente. Lhe perguntei:
- Por que eu também não fui revistado, apenas eles?
Não me respondeu, apenas me fez outra pergunta:
“Por que você tá perguntando isso rapa?”
Fui obrigado a esclarecer que a minha intenção não era tomar um baculejo, mas que me estranhava o fato de que apenas duas pessoas foram revistadas, já que nada poderia garantir aos polícias que eu ou o senhor que também estava lá não fossemos criminosos. Como não uso uniforme para trabalhar à noite e não estava com o crachá no pescoço não havia nada em mim que indicasse ser alguém vindo do trabalho. A maioria das pessoas para quem relatei este fato ficam assustadas por eu ter criado uma situação onde poderia ter inflamado nos policiais os seus instintos autoritários e sofrido alguma violência por parte deles. Mas penso que de alguma maneira a violência já havia acontecido.
Não sei se os rapazes seriam mesmo criminosos ou apenas estavam ali pelo mesmo motivo que eu, se chegaram do trabalho e iriam comprar alguma coisa para comer antes de dormir, mas o fato de apenas eles serem revistados demonstra claramente dois grandes problemas com que temos convivido, e que em muitos casos contribuímos para que eles aconteçam. Primeiro, o fato de os policias agirem levando em conta não situações concretas, mas apenas estereótipos para julgar quem deve e quem não deve ser visto como criminoso. E segundo, a eficiência do trabalho policial, pois ao perguntar por que eu não havia sido revistado estava questionando a eficiência do trabalho público que eles estavam realizando. Acredito que contribuímos muitas vezes com esse dois problemas quando reproduzimos o mesmo julgamento por estereótipos para tentar identificar quem pode nos assaltar ou não, e quando não questionamos de que maneira a polícia realiza o seu trabalho e aceitamos os abusos como se fossem corretos e eficientes.
É claro que espero da polícia ações que me garantam segurança, pois também vivo em um esquema meio burguês de consumo, prestação do carro popular e planos em fazer um cruzeiro pelo litoral brasileiro para ter uma intoxicação alimentar durante a viagem, e ainda podendo pagar isso tudo em 12 vezes no cartão. Mas não vejo de que maneira a forma como os dois rapazes foram abordados pode me garantir mais segurança. Se eles iriam cometer um crime, tudo bem, mais um assalto iria ser evitado. Mas, de que maneira isso contribui no conjunto da segurança pública para que eu possa sair agora de casa com tranqüilidade. No entanto, se eles não eram criminosos, não tinham intenção de assaltar ninguém, como eles teriam se sentido ao ter saído de lá, tendo a partir daquele momento todos os olhares voltados para eles com desconfiança, com as pessoas acreditando que eles realmente possam ser criminosos. O pior para todos nós enquanto sociedade será se eles mesmos começarem a acreditar nisso.
Obviamente você que está lendo este texto deve estar curioso para saber qual foi a reação dos policiais ao meu questionamento, pois, no interesse que temos pelas questões sociais, se a noticia não terminar com alguém agredido ou com um grandioso ato heróico não tem graça. Não fui agredido - ao menos fisicamente - e nem tive pessoas a minha volta me agradecendo por tê-las salvo de homens maus, o desfecho teve outro tom. Acredito que o policial para quem perguntei era esperto e entendeu o que eu quis dizer, mas não deixou de agir com a arrogância própria de quem, como diz o Rappa em um de suas músicas, “se sente autoridade nesse tribunal de rua”. Ele ironicamente disse que isso é uma coisa que não se resolve na rua, mas sim na corregedoria da polícia. Ele não me deu um pesocotapa, não bateu com o cacete nos meus rins e nem colocou um saco na minha cabeça como o bope, mas o recado foi o mesmo, de que o que acontece na rua acaba ficando na rua.
Obs.: E só para constar... os rapazes eram os único negros na loja.               

2 comentários:

Cintia Leonor - Assessoria disse...

O texto é bacana, mas mto longo, uma vez que a proposta do blog é uma leitura rápida e dinâmica...

Leão disse...

Estou procurando um Plano de negocio referante agencia Promotora de eventos ou seja Patrimonio Arquitetonico
Pontos Turisticos
Arte Cultural relacionado a Belém-Pará

Postar um comentário

Subscribe