Júnior Silva - 11/11/2009
Já assumi em outros textos a minha obsessão pela atriz italiana Mônica Bellucci. Sempre imaginei que se ela se casou com um homem com a beleza do ator Vincent Cassel eu teria alguma chance também, só que ele chegou primeiro. Foi justamente minha devoção por Mônica que me levou a assistir o filme “Malena” protagonizado por ela. Descobri um filme comovente e sensibilizador, mas perturbador e incômodo para quem tem dificuldades em aceitar as diferenças e tenta linchar moralmente quem foge de seus conceitos de verdade. Lembrei-me deste filme ontem, quando ouvia na cantina da faculdade onde trabalho duas alunas comentando sobre o caso da estudante da Uniban, que foi hostilizada por praticamente a universidade inteira devido a maneira como ela estava vestida tendo vídeos sendo vistos na internet. Em um dos momentos da conversa uma fez o seguinte comentário: “Ela nem era tão bonita assim”. E a outra replicou: “o modelo do vestido não tinha nada haver...”.
Na película, Malena é uma mulher muito bonita que mora em uma pequena cidade do interior da Itália durante a segunda guerra. Enquanto espera seu marido voltar dos campos de batalha ela vive sozinha, trabalha como costureira e visita regulamente o pai idoso que é professor aposentado. Interage pouco com a cidade habitada por uma população que defende um conservadorismo puritano, mas que escondem suas perversidades e contradições morais. Após a morte de seu pai e a chegada da notícia de que seu marido havia morrido na guerra ela passa a ser hostilizada pela cidade, pois uma mulher bonita, morando sozinha, com independência em vários aspectos acaba incomodando aqueles que se privam de experimentar a vida em nome de valores que nem mesmo eles sabem por que os defendem.
Assim como a personagem de Mônica Bellucci era hostilizada pela cidade, todos os dias promovemos linchamentos morais sobre aqueles que se propõem a assumir um comportamento diferente do que aprendemos a ver como correto. Emos, homossexuais, rastafáris, negros, asiáticos, umbandistas, evangélicos e outros são apenas alguns que sofrem esse tipo de intolerância. No caso da estudante de turismo da Universidade Uniban, a manifestação grotesca e primitiva dos alunos por si só já é uma aberração. No entanto, me assustou ainda mais a decisão da instituição em expulsá-la e dizer no documento justificando a expulsão que a atitude dos alunos foi uma “manifestação coletiva de defesa do espaço acadêmico”. Esta definição é no mínimo esquisita, se tratando de uma instituição que deveria promover a tolerância à pluralidade e refletir sobre ela com rigor científico e princípios humanistas. A atitude da universidade de expulsar a aluna reafirma a nossa incapacidade de dialogar e de assumir a saudável atitude de desconfiar de nossas convicções. O que a Unibam promoveu foi a legitimação para que seus alunos continuem massacrando tudo que não pode ser tolerado pela nossa falta de habilidade em nos relacionar com a diferença. Se a estudante não estava em trajes “adequados” ou não a instituição não teria sua parcela de culpa? Se existe em algum regimento interno com critérios para os trajes a serem utilizados no interior da instituição por que ela não foi advertida? E se foi, por que ela continuou indo? Ela é a única que já foi vestida assim ou de outra maneira “inadequada” no universo de centenas de alunos? Até que ponto a própria instituição não fez vista grossa para essa e outras situações similares para preservar algumas mensalidades?
Apesar de ver esses questionamentos como pertinentes, acho que eles ainda são muito pequenos diante da questão que realmente deve ser levada com relevância e seriedade neste episódio, que é a existência de uma sociedade doente e incapaz de se acolher e dialogar, e que diante de um fato como este o máximo que consegue questionar é se o vestido dela combinava, ou se ela era bonita ou não para estar no youtube.



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